Imóvel ocioso vira base de logística urbana

Uma antiga oficina mecânica na Lapa, zona oeste de São Paulo, hoje abriga um
pequeno centro logístico voltado à distribuição de produtos na cidade. O imóvel, de
cerca de 250 m2 e aproximadamente 70 anos, ganhou nova função ao ser adaptado
para acelerar entregas de itens como cosméticos, eletrônicos e livros, ilustrando uma
transformação cada vez mais presente nas grandes cidades com o avanço do
comércio eletrônico. O setor deve movimentar mais de R$ 235 bilhões neste ano,
segundo projeta a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm)
A adaptação da oficina foi feita pela Cubbo, plataforma de infraestrutura para
comércio eletrônico que integra centros de distribuição, transporte e tecnologia. O
espaço opera como um xdock urbano - ponto de consolidação entre centros
logísticos e a entrega final -, permitindo entregas no mesmo dia e reduzindo em
cerca de 20% os custos logísticos da empresa. “Encontrar esse tipo de imóvel foi um
processo longo, porque os critérios são muito específicos: localização central,
acesso para veículos, zoneamento compatível e metragem adequada. A oferta de
espaços que combinam tudo isso é limitada, e a disputa aumentou com o
crescimento do e-commerce”, diz Ignasi Vegas, CEO da Cubbo.
O caso sintetiza uma mudança mais ampla no uso do espaço urbano. Garagens
pouco utilizadas, galpões desativados e lojas que perderam tração no varejo físico
vêm sendo transformados em bases logísticas, criando uma nova demanda no
mercado imobiliário.
Na avaliação de Mauricio Nascimento, diretor de logística e industrial da Colliers
Brasil, essa transformação ainda é seletiva e depende de adequação dos ativos.
“Galpões industriais antigos têm vocação natural para esse tipo de uso. Também
vemos potencial em lojas de médio a grande porte, de 500 m2 a 2.000 m2,
localizadas em vias de grande fluxo”, diz ele. Características como pé-direito alto,
área de manobra e facilidade de acesso são determinantes. Concessionárias,
antigas unidades dos Correios e plantas industriais estão entre os ativos mais
adaptáveis.
Nem todo imóvel, porém, segue esse movimento. A conversão de garagens
corporativas, frequentemente apontada como tendência, enfrenta limitações. Prédios
corporativos dependem dessas vagas para seus ocupantes, o que torna essa
adaptação menos atrativa. A lógica de localização também se altera. Em vez da
centralidade voltada ao consumo, o valor passa a estar associado à acessibilidade e
à proximidade de áreas densamente povoadas. Ainda assim, a demanda não

garante valorização permanente. “Esses espaços podem ganhar relevância no
momento atual, mas isso não assegura liquidez de longo prazo, já que a demanda
pode evoluir para outras soluções”, diz Nascimento.
A viabilidade das operações depende ainda de tecnologia e gestão. “Sem
ferramentas de roteirização e visibilidade, muitos desses espaços não conseguem
operar de forma economicamente sustentável”, afirma Jefferson Rubbo, solutions
consultant da Descartes.
A chamada última milha - etapa final entre o centro de distribuição e o consumidor -
passou a exigir estruturas mais capilarizadas e inseridas na malha urbana. Na
prática, o modelo de grandes centros logísticos periféricos vem sendo
complementado por uma rede distribuída de pontos menores dentro das cidades,
ocupando imóveis ociosos e ampliando a disputa por ativos bem localizados. “A
logística urbana se tornou mais hiperlocal, com estoques posicionados dentro dos
bairros para reduzir distâncias e tornar as entregas mais eficientes”, aponta Rodolfo
Montanha, general manager do Rappi Turbo no Brasil.
Esse movimento se traduz na multiplicação de estruturas de menor porte,
pressionando o estoque imobiliário disponível. A Loggi opera com capacidade de
cerca de meio milhão de pacotes por dia e uma rede com mais de 1.700 pontos de
coleta e retirada e cerca de 160 hubs urbanos. O envio de encomendas entre
capitais cresceu 53% no quarto trimestre de 2025. “Reduzir distâncias significa
ganhar eficiência operacional, economia e previsibilidade, além de viabilizar entregas
mais rápidas”, diz Alexandre Felix, vice-presidente de operações da Loggi.
No Mercado Livre, a estratégia passa pela aproximação física das operações. A
companhia estruturou uma malha com mais de 5.000 operações logísticas no país,
permitindo que 75% das entregas rápidas sejam realizadas em até 48 horas. “Ao
posicionar o estoque mais perto de onde o cliente vive, reduzimos drasticamente o
tempo de deslocamento e o custo da última milha”, diz Frederico Rezeck, diretor
sênior de transportes.
Ao mesmo tempo em que impulsiona a reconversão de imóveis urbanos, a expansão
da última milha impõe novas tensões à mobilidade. Para Adriano Borges Costa,
coordenador acadêmico do Centro de Estudos das Cidades - Laboratório Arq.
Futuro, do Insper, o desafio central não está na presença desses microcentros
logísticos, mas na forma como a operação é estruturada. “Há uma pressão por
entregas cada vez mais rápidas que pode gerar comportamentos de risco, como o
desrespeito à sinalização e aos tempos do pedestre. O problema não está na
existência desses centros, mas nos incentivos que orientam a forma como a entrega
é realizada”, afirma.
Ainda assim, ele não vê incompatibilidade entre a expansão logística urbana e
agendas como prioridade ao pedestre. “A logística faz parte do funcionamento da
cidade e pode, inclusive, reduzir deslocamentos individuais. O ponto central é ajustar
os incentivos e a regulação para que essa operação aconteça com segurança e sem
comprometer a qualidade do espaço urbano”, diz.